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Vozes que constroem a latinidade de dentro — pessoas e lugares que narram o continente sem pedir licença.

Perfil · Imigrante
"Aqui eu sinto que é meu lugar"
Neudy — Caracas, Venezuela → São Paulo, Brasil
Perfil · Lugar
Onde a América Latina pulsa sob os pés
Pavilhão da Criatividade — Memorial da América Latina, São Paulo
✦   Perfil · Imigrante venezuelana

"Aqui eu sinto que é meu lugar"

Depois de cruzar países e começar do zero mais de uma vez, a venezuelana Neudy encontrou no Brasil algo que não estava procurando: a sensação de pertencer.

Neudy Betzabé · Caracas, Venezuela · No Brasil desde 2023

Neudy fala de saudade como quem sabe exatamente o que é perder. Não com melancolia, mas com precisão. A saudade do pastel de peixe que só existe na Páscoa venezuelana. Da comida de dezembro que se come o mês inteiro e que ela precisa fazer sozinha, aqui, quando consegue os ingredientes, com a memória das mãos guiando o que a receita não consegue descrever. Da Venezuela que existia antes — não a de hoje, mas a que suas avós habitaram e nunca precisaram abandonar.

Ela saiu de lá em 2017. Não por escolha, mas por necessidade, que é uma escolha que dói de outro jeito. O marido foi na frente, abrir caminho na Bolívia. Três meses depois, ela seguiu com o filho mais velho, que tinha um ano e meio no colo. "Ninguém quer sair da sua terra", ela diz, e deixa a frase no ar como quem precisa que o outro entenda isso antes de qualquer outra coisa.

A Bolívia durou seis anos e nunca deixou de ser estrangeira. Lá, a palavra "migrante" carregava um subtexto que Neudy aprendeu cedo: você não pertence aqui. Os documentos pediam outros documentos que ela só conseguiria se já tivesse os primeiros — um labirinto sem saída. O segundo filho nasceu ali, boliviano de certidão. E quando ela foi matricular o mais velho na escola, depois de dois dias de fila, ouviu que não podia ser a responsável legal do próprio filho. Era estrangeira.

"Para mim foi muito feio. Meus sentimentos foram muito sérios."

Neudy Betzabé, sobre ser impedida de assinar como mãe do próprio filho na Bolívia

Quando a Bolívia começou a dar os mesmos sinais que a Venezuela — preços subindo, governo se deteriorando, o medo se tornando familiar demais — um irmão que já estava no Brasil disse: vem. Em dezembro de 2022, venderam o que tinham. Viajaram por terra. Cruzaram a fronteira de Corumbá na virada do ano e chegaram ao Brasil no primeiro dia de 2023.

O que encontrou foi o oposto do que conhecia. Os vizinhos do primeiro apartamento foram até eles sem serem chamados, com roupas para as crianças, com o que tinham para oferecer. Para Neudy, que vinha de anos sendo tratada como alguém que não pertencia, a gentileza simples dos vizinhos foi quase incompreensível. "É maravilhoso chegar a um lugar e você se sentir amada", ela diz, e a voz ainda carrega a surpresa.

O pronto socorro

Oito dias depois da chegada, o filho mais novo teve uma crise de asma. Neudy hesitou — o corpo ainda guardava o reflexo da Bolívia, onde ela nem podia assinar como mãe. Que garantia tinha de que aqui seria diferente? Mas foi. No pronto socorro público, pediram só o CPF. O médico atendeu na hora. A medicação saiu de graça.

A matrícula do filho mais velho viria logo depois. Ela foi à secretaria sabendo que o prazo já tinha passado, preparada para a recusa. Na Bolívia, essa cena terminava com uma porta fechada. Aqui, terminaria com uma data de início das aulas, uniforme e material escolar providenciados e um projeto de reforço montado especialmente para que o menino aprendesse português em horário integral. "Pronto", disseram. Ela ficou olhando, sem entender. "Já?"

Guardiã da língua

Em casa, ela é guardiã de outra língua. Fala espanhol com os filhos porque eles estão esquecendo as raízes — a "silla" já virou "cadeira", e ela não quer que o fio se rompa. Faz comida venezuelana porque é com ela que ensina de onde vieram. Mostra fotos da cidade natal, da família, das ruas que os meninos quase não lembram. Há uma ternura muito concreta nesse gesto: preservar a memória de um país em filhos que crescem falando português, que torcem junto nas comemorações de futebol sem saber ao certo por qual time, mas que sabem que, quando o Brasil grita gol, a mãe lembra do beisebol, esporte popular de Caracas, sua cidade natal.

Se tivesse que fazer tudo de novo, faria. Sem hesitar. Não porque foi fácil — foi o contrário. Mas porque a Venezuela que ela deixou já não existe mais, e a que ficou é pior do que a que ela conheceu. As avós morreram lá sem precisar sair. Ela não teve essa opção. Teve outra: a de encontrar, do outro lado de uma fronteira, um lugar onde a trataram como gente desde o primeiro dia.

"Aqui eu sinto que é meu lugar."

Neudy Betzabé — com a calma de quem sabe, agora, o que esse peso significa
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Onde a América Latina pulsa sob os pés

No coração de São Paulo, um pavilhão guarda o que nenhum mapa consegue mostrar: a alma de um continente.

Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro · Memorial da América Latina, São Paulo

Há lugares que não se visitam, se habitam. O Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro, dentro do Memorial da América Latina, em São Paulo, é um desses espaços que não pedem apenas olhos. Pedem tempo, presença e uma certa disposição para se perder.

Seus 600 metros quadrados não costumam impressionar à primeira vista. A arquitetura austera de Oscar Niemeyer que envolve o complexo prepara o visitante para o monumental, mas o que o Pavilhão oferece é quase o oposto: o miúdo, o cotidiano, o feito à mão. Uma panela de cerâmica do Alto Xingu. Um traje de carnaval da escola Rosas de Ouro. Uma figura de Iemanjá, de Oxalá, de Nanã. São quase quatro mil peças ao todo.

Tudo começou com um olhar fotográfico. Jacques e Maureen Bisilliat percorreram o continente em viagens de coleta que atravessaram Brasil, México, Peru, Equador, Guatemala, Bolívia, Paraguai, Chile e Uruguai. O que trouxeram de volta não era apenas objeto — era evidência. De que existia, espalhada por esse território enorme e plural, uma capacidade criadora que não havia sido nomeada como arte porque nunca precisou ser.

O que une e o que diferencia

Rafael Bezerra trabalha no Memorial há oito anos. Hoje gerente de arte e design, ele acompanha de perto o que entra, o que permanece e o que o espaço continua dizendo. Para ele, o que une culturas tão diferentes num mesmo pavilhão não é a origem colonial nem a língua — é outra coisa, mais difícil de nomear.

O nome que carrega não é decorativo. Darcy Ribeiro — sociólogo, etnólogo, ministro da Educação, defensor das causas indígenas e um dos pensadores mais inquietos do Brasil contemporâneo — foi o responsável pelo projeto cultural do Memorial. Morreu em 1997, mas suas palavras ainda recebem quem entra no espaço:

"Os povos descendentes das antigas civilizações americanas guardam na alma toda a imensa vontade de beleza de seus ancestrais e têm nas mãos o prodigioso talento de recobrá-la em admiráveis criações. Onde houve alta civilização, há alto artesanato."

Darcy Ribeiro

Pisar sobre o continente

No chão, literalmente, está o destaque permanente do Pavilhão. Uma maquete subterrânea da América Latina, criada em 1988 pelos arquitetos Gepp e Maia com uma equipe de miniaturistas, estende-se sob um piso de vidro transparente e resistente a impactos. Em alto relevo, o continente inteiro cabe sob os pés de quem o percorre: cidades, regiões, tradições populares, contornos geográficos. Há algo de vertiginoso nessa experiência.

Rafael já esteve dentro dela. Numa ocasião de manutenção, desceu descalço, com proteção nos pés, e limpou cada detalhe da peça por dentro.

"Eu conseguia ver toda a América Latina junta, como se eu estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo. Olhando Machu Picchu, vendo o canal do Panamá, vendo o Pantanal — uma visão que a gente não teria do Pantanal. Você não consegue ver essas coisas."

Rafael Bezerra

Arte ou artesanato?

Nas vitrines, as peças funcionais e cerimoniais da cultura indígena guardam uma lição que Orlando Villas Bôas enunciou em 1979, e que o Pavilhão parece querer repetir para cada visitante: "A arte é inerente ao índio. Em tudo o que faz, ela se manifesta." Uma panela, segundo Villas Bôas, só é uma panela quando está totalmente enfeitada — se não for pintada, não é panela.

Rafael conhece bem o debate sobre onde essas peças se encaixam — se são arte, artesanato, arte popular. Para ele, a discussão importa, mas não é o que define o valor do objeto.

O Pavilhão da Criatividade não é um museu de nostalgia. É um argumento. Defende, com argila, madeira, ferro e fibras, que a América Latina não é apenas um conjunto de países unidos por idiomas parecidos e história colonial compartilhada. É um continente que sempre soube criar. E que, dentro de 600 metros quadrados no centro de São Paulo, ainda insiste em lembrar isso.

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